
via bia morbach.
Sabemos que o relógio foi criado para medir a compra de trabalho. Quem controlava o tempo, controlava também o poder - atrasava-se o relógio ao fim do expediente como forma de ludibriar os empregados. Pois bem. A história hoje é outra. Como bem nos lembra Eugênio Bucci, o gerúndio é a forma verbal que sintetiza nosso tempo. O tempo não para no espaço de fluxos de Castells. A bolsa de Tokyo fecha enquanto a de Nova York começa suas atividades. Máquinas fazem ininterruptamente o trabalho antes feito por humanos em jornadas pré-determinadas. O homem, teoricamente, ganha mais tempo para desfrutar sua vida a cada dia. Flexibilização do trabalho, home office, redução da carga horária. São estas as palavras de ordem do momento.
Castells nos ensina que "por mais de um século, entre 1870 e 1980, pudemos observar duas tendências conexas nas economias industrializadas: diminuição do tempo de serviço por indivíduo e por trabalhador e aumento da homogeneização e regulamentação do tempo de serviço como parte do contrato social que fundamenta o estado de bem-estar social". Tendências as quais, há pouco, "foram modificadas para um padrão cada vez mais complexo e variável. O principal fenômeno parece ser a crescente diversificação do tempo e dos horários de trabalho que reflete a tendência à desagregação do trabalho no processo de trabalho" (Castells, 1999: 533).
Castells prossegue afirmando que, "embora o trabalho continue integrado, a sociedade tende a sua fragmentação em consequência do desenvolvimento incontrolável de temporalidades contraditórias dentro da mesma estrutura". Conclui, enfim, que "a questão real de nossas sociedades não é tanto o fato de a tecnologia nos permitir trabalhar menos para a mesma unidade de produção: isso é verdade, mas seu impacto no tempo real de trabalho e nos horários é indeterminado (grifo nosso). O que está em jogo e parece ser a tendência predominante na maioria dos setores avançados da maior parte das sociedades desenvolvidas é a diversificação geral do tempo de trabalho, dependendo das empresas, redes, empregos, ocupações e características dos trabalhadores" (Castells, 1999: 536).
Neste sentido, a célebre citação de Adorno em que afirma a diversão como prolongamento do trabalho nos parece das mais pertinentes, como nunca antes, em tempos supermodernos - um capitalismo pós-tardio, já em vias de sucateamento. "Ela (a diversão) é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se por de novo em condição de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação das mercadorias destinadas à diversão, que esta pessoa não pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo de trabalho" (Adorno; Horkheimer, 1985: 128).
Exemplo disto nos dias de hoje e em um sentido puramente (no sentido de pureza intrínseca) fetichista, a rede social Twitter poderia se traduzir em um fenômeno mercadológico individualista, em que o sujeito (produtor) se confunde com a própria mercadoria que produz (informação) ao tempo em que é, em uma relação hierarquicamente entrelaçada, o principal consumidor da rede e de si mesmo, reproduzido à imagem e semelhança dos seus a cada RT bonificado, a cada informação passada adiante.
Um dado interessante deste cenário é que grande parte dos usuários do Twitter utilizam a ferramenta de seus locais de trabalho ou enquanto trabalham, onde seja. Uma pesquisa da Universidade de Melbourne demonstrou que usuários da internet por razões pessoais no trabalho são cerca de 9% mais produtivas do que os que não usam, sendo que internautas passam cerca de 20% do período de tem sites de relacionamento (Folha Online, 02/04/2009). Diversão como prolongamento do trabalho em estado puro e vivenciado cotidianamente.
Aqui, novamente, o indivíduo se confunde com o coletivo e vice-versa. Como se o indivíduo participasse de um brainstorm virtual aleatório com seus seguidores da rede social. Ele já não tem certeza de quem é, algo lhe falta e este vazio é preenchido a cada tweet. Se é verdade que o valor a menos no sujeito pelo trabalho é o valor a mais atribuído ao desejo, o resultado final em tempos supermodernos acaba por não condizer com o esperado a partir dos fatores pré-estipulados.
Zygmunt Bauman corrobora tal teoria ao afirmar que "todo tipo de ordem social produz determinadas fantasias dos perigos que lhe ameaçam a identidade. Cada sociedade, porém, gera fantasias elaboradas segundo sua própria medida - segundo a medida do tipo de ordem social que se esforça em ser. De um modo geral, tais fantasias tendem a ser imagens espelhadas da sociedade que as gera, enquanto a imagem da ameaça tende a ser um auto-retrato da sociedade com um sinal negativo". Uma vez fantasiada a ameaça, cria-se a necessidade aparente de uma fortaleza sitiada para garantir uma certa sensação de segurança. "Mas os inimigos que lhe sitiaram os muros são os seu próprios 'demônios interiores' - os medos reprimidos e circundantes que lhe permeiam a vida diária e 'normalidade', e que, no entanto, a fim de se tornar suportável a realidade diária, devem ser dominados, extraídos do cotidiano vivido e moldados em um corpo estranho, um inimigo tangível com que se possa lutar, e lutar novamente, e lutar até sob a esperança de vencer" (Bauman, 1998: 53). Qualquer semelhança com a violência sobre a qual dissertamos no início do trabalho não é mera coincidência.
Voltando a Bauman, porém, e à questão produtor enquanto consumidor, aprendemos que "quando controlava a conduta disciplinada de seus membros por meio de seus papéis produtivos, a sociedade incitava forças combinadas e a busca de avanço mediante esforços coletivos. A sociedade que obtém padrões de comportamento para uma ordem mais estável daqueles seus integrantes que se viram expulsos, ou estão prestes a ser expulsos, de suas posições de produtores e definidos em vez disso, primordialmente, como consumidores, desencoraja a fundamentação da esperança em ações coletivas. Pensamentos que emergem dentro do horizonte cognitivo moldado pelas práticas diárias dos consumidores invariavelmente acentuam o agudo interesse pelo mercado consumidor e ampliam-lhe os poderes de sedução. Ao contrário do processo produtivo, o consumo é uma atividade inteiramente individual. Ele também coloca os indivíduos em campos opostos, em que frequentemente se atacam" (Bauman, 1998: 54).
E prossegue dizendo que "a sedução do mercado é, simultaneamente, a grande igualadora e a grande divisora. Os impulsos sedutores, para serem eficazes, devem ser transmitidos em todas as direções e dirigidos indiscriminadamente a todos aqueles que os ouvirão. No entanto, existem mais daqueles que podem ouvi-los do que daqueles que podem reagir do modo como a mensagem sedutora tinha em mira fazer aparecer. Os que não podem agir em conformidade com os desejos induzidos dessa forma são diariamente regalados com o deslumbrante espetáculo dos que podem fazê-lo. O consumo abundante, é-lhes dito e mostrado, é a marca do sucesso e a estrada que conduz diretamente ao aplauso público e à fama. Eles também aprendem que possuir e consumir determinados objetos, e adotar certos estilos de vida, é a condição necessária para a felicidade, talvez até para a dignidade humana" (Bauman, 1998: 55-56).
Finalmente, conclui que "se o consumo é a medida de uma vida bem-sucedida, da felicidade e mesmo da decência humana, então foi retirada a tampa dos desejos humanos: nenhuma quantidade de aquisições e sensações emocionantes tem qualquer probabilidade de trazer satisfação da maneira como o 'manter-se ao nível dos padrões' outrora prometeu: não há padrões a cujo nível se manter - a linha de chegada avança junto com o corredor, e as metas permanecem continuamente distantes, enquanto se tenta alcançá-las" (Bauman, 1998: 56).
Sendo claro: Marx e a necessidade como fantasia, como contraponto ao desejo e sua cara-metade. Um signo construído pelo e para o olhar, da mesma forma que o trabalho constrói a mercadoria. O desejo atendido pela imagem. Um gozo imaginário calcado na alteridade. "Não importa se o signo é compreendido ou não, importa é que ele se torna reconhecível - quanto mais se olha, mais valor ele tem" (ref. Cit. Bucci). Uma máxima publicitária praticada dia após dia nos meios de comunicação: vendem-se olhares.
(parte do trabalho final do curso Fabrição de Valor na Indústria do Imaginário, do programa de Mestrado em Ciências da Comunicação da USP, ministrada por Eugênio Bucci - escrevi às carreiras, não consegui expor da forma como queria, mas...)

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.



