Este é o último post deste blog. Obrigado a todos que me acompanharam por esses anos, mas é hora de fechar o Bunker. Cinco anos de posts, fora os outros anos de blogs abandonados por aí. Quando comecei a escrever aqui, tinha 17 anos. Hoje tenho 23. Mudei muito nesse tempo. Este blog também. Sou grato por tudo que este me trouxe, foi muito bom escrever isso aqui.

Os arquivos ficarão no ar por um tempo, cortesia do Rey. E eu não irei sumir ou coisa assim. Meu site pessoal continua no ar, e é por lá que continuarei postando coisas - em alguns dias tudo deve estar funcionando. Talvez não mais textos. Ainda tem a minha conta no Twitter e se tu procurares meu nome por aí, acharás meus perfis em redes sociais. Qualquer coisa, tu sabes onde me encontrar.

Um abraço pra ti e a gente se vê por aí.

Renmero
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remakes

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D'Angelo, jovem mestre. Lançou apenas dois discos. Desde 2000 não faz shows ou dá entrevistas. Prefere ficar em estúdios pelo mundo entornando garrafas de vinho branco e compondo sem limites com gente como The Roots e Erykah Badu. Já perdeu o mojo absurdo que tinha há dez anos e não está nem aí pra isso.

Toda vez que sobe em um palco, destrói sonhos de músicos aspirantes e faz derreter qualquer guria em um raio de dez quilômetros. Assim como Dr Dre e Lauryn Hill, lançou poucos discos, fincou seu nome na história da música negra e parece ter... desencanado.

Deixa estar. Não entendo, mas finjo que. Até porque mesmo sem lançar nada, a gravadora dá um jeito de ganhar um trocado de vez em quando: semana passada saiu um disco chamado Remakes, que nada mais é um apanhado de versões de hinos soul que D'Angelo fez entre 95 e 2000 (o exato período entre sua estréia com Brown Sugar e seu segundo disco, Voodoo).

Tem Green, Ohio Players, Gaye e, claro, Smokey Robinson. Cruisin' já tinha saído em Brown Sugar e reaparece na compilação. É uma das minhas favoritas. Parece insustentável de tão frágil que soa e ao mesmo tempo é perfeita para traduzir o sentimento de guria vamos ali dar uma volta enquanto te digo o quanto tu és linda e não voltar mais.

É sempre bom ouvir Smokey cantando por quem entende das coisas. E cacete, como canta esse cara. No mundo de D'Angelo, toda canção tem uma batida lenta, constante e hipnotizante, os instrumentais são sutis, soam somente por um pequeno espaço de tempo e o soul deixa de ser um estilo musical e vira o universo ao seu redor. Não há outro tipo de música, tudo é soul.

Aí até dá pra entender os dez anos de reclusão.

gangsta luv

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Trem, escada, contramão, portão, edredon, Daily Show e frio. Sexta, noite. Pouco sei sobre Copa do Mundo, mas esse gramado é incrível, parece que a Pixar projetou. Vou assistir esse filme do Matt Damon primeiro. Tudo igual essas porra de filmes do Greengrass. Fica tão gelado aqui dentro que é preciso fôlego para levantar e aumentar o volume.

Sexta, noite. Cesinha. Lugar legal, pequeno, boas cervejas e agora tem até TV LCD gigante. Todo lugar tem TV LCD gigante agora. Frio noturno combinado com leve chuva. Clichês rodando sem limites. Fico em pé do lado de fora, tentando fazer com que a minha jaqueta me esquente. Leffe brune, boa escolha. Sempre me acompanhando por aí. Pontas dos dedos geladas. O cesinha está cheio. Adoro ver as prateleiras com garrafas estranhas.

Gafanhoto e sua guria chegam. Entre uma olhada curiosa para o replay de Uruguai e França (é isso?) tentamos fazer sentido. Ele nunca para de falar, diz o gafanhoto. Ficamos em pé do lado de fora, o frio é importante. Já te disse que a gente deve se encontrar somente no inverno. A guria dele ri e faz cara de séria de vez em quando. Sexta, noite. Sono. Divagações sobre o que é necessário para lutar mixed martial arts (e uma constante indagação de "mas por que?" - que é respondida com a citação daquele cara que primeiro escalou o Everest - "por que estava lá"). Nada muito relevante no final das contas.

Sexta, noite. Volto para casa e descubro que o Mayer Hawthorne fez um remix de Snoop Dogg. Já experimentaste enrolar no edredon e simular uma cena de The Fall dentro do quarto? Fica massa. Coloca um Brant Bjork pra tocar e finge que estás em uma banda onde todo mundo se veste de edredon. Buckethead. O que eu queria mesmo eram todos os filmes do Bruce Lee em blu-ray. Amanhã é sábado, tem UFC e jogos da copa. Lavar roupa. Frio, sono. Sexta, madrugada.

E sim, guria, eu senti tua falta.

Everything we do is secret. Nothing we do will ever be understood; we will be feared and kept well away from. It will be the stuff of legend, endless discussion and limitless inspiration for the brave of heart. It's you and me in this room, on this floor. Beyond life, beyond morality. We are gleaming animals painted in moonlit sweat glow. Our eyes turn to jewels and everything we do is an example of spontaneous perfection.

woke up, got up, near eleven o'clock.
butt naked except I was wearing my socks
and that's cool, 'cause most the time this floor is cold
stand up and stretch and look for my soul
1. rollins
2.
bohemea
3. atmosphere

É sempre mais ou menos assim: tu estás lá encarando o microondas enquanto ele faz o seu trabalho, pensando em alguma besteira qualquer e talvez até ouvindo levemente a música que toca no quarto. Uma noite qualquer, talvez tu estejas até feliz. Até especialmente feliz.

Aí tu lembras de alguma coisa pequena sem razão nenhuma. Pode ser algo como "eu não quero outro, quero você" que te disseram certa vez. É, pode ser isso. Pronto, tua noite vai embora. Essa pequena frase desencadeia uma torrente de memórias sem limites. Difícil parar. Tu passas a lembrar das cagadas que fizeste, das dívidas não pagas, das promessas não cumpridas, dos livros não lidos, dos perdões que precisas.

O que seria uma noite normal vira uma enorme sessão de auto-análise. Tu gastas um tempo imenso pensando em tudo isso. O relógio zera 00:00 e tu ficas lá, encarando os ponteiros digitais e pensando. Tenta meditar um pouco, encontrar um jeito de pelo menos diminuir o ritmo e conseguir fechar os olhos. Porque fechar os olhos neste estado só piora as coisas. Tudo começa a ganhar forma, o que era abstrato vira uma fotografia, um filme, uma imagem. Fechar os olhos fode tudo.

Aí resolves pensar em outras coisas, senão a noite não termina. Aspirações, sonhos e coisas que tu deves fazer. Publicar aquele romance ruim revisado oitocentas vezes, morar em Shinjuku, aprender russo, lutar no UFC, viajar pela transsiberian express, aprender a dançar tango, jogar no WSOP. Essas coisas.

Pouco adianta, na verdade. Aí tu ligas um filme qualquer, uma série ou um documentário. Ficas ali inerte absorvendo as imagens; fugindo de si mesmo. Já são quatro da manhã. Nenhum sinal de paz interior. Pegas um livro e busca um consolo. Nada lá. Porra. Começa a fazer aquele frio matinal mortal e tu começas a tremer levemente. Devias ter comprado aquele moletom mais grosso.

O cinismo começa a aparecer. Esse câncer filha da puta que rapidamente coloca na tua cara um sorriso besta e um ar de superioridade falso. Para combatê-lo, começas a utilizar a raiva. A raiva te mantém são e nutrido. Ela te move, te consola. Não deixa o cinismo dominar. Te dá a paz necessária. Engraçado como isso funciona. Somente utilizando a raiva tu consegues atingir alguma serenidade.

A raiva é a única coisa que te mantém caminhando. Porque o cinismo te faz desistir. E tu não queres desistir, é a saída mais fácil. Todo lugar está cheio de cínicos, rindo das mesmas piadas e dizendo os mesmos aforismos. Derrotados, desistentes e preguiçosos. Assumir que essa experiência chamada vida te derrotou é inaceitável. E a raiva te ajuda. Ela fica do teu lado e diz nada está perdido, cara. Está tudo ali para tu pegares.

Mas eu não consigo, não tenho como. É coisa demais para lidar.
Tens sim, usa o sangue nos olhos que estou te dando.

E então tu deixas a noite longa para trás. Não irás ficar de quatro e deixar a vida se divertir. Tu vais trabalhar doze horas por dia e fazer algo que ninguém mais consegue, lerás quatro livros ao mesmo tempo, dominarás todo o conhecimento ocidental dos últimos séculos, pegarás todos os teus erros e dizer OK, fui idiota e coisas aconteceram, agora resta ir adiante. Parar não é uma opção.

Amanhece e é hora de ir para o dojo. Tu fazes o melhor treino da semana: a raiva molda a tua prática. Nenhum erro é aceitável. Cada golpe precisa estar prefeito. Inaceitável ser de outra forma. Treinas até os músculos começarem a ceder e o sistema respiratório não aguentar mais. Após o treino, trabalhas como ninguém jamais trabalhou na face da terra.

Porque não há alternativa. Ou fazes algo ou aceitas a derrota. E qualquer coisa que mereça ser feita deve ser feita como jamais foi feita.

Aí finalmente tu suspiras aliviado.

É por causa disso que escuto hip hop.

Para quando eu estiver caminhando com os fones, seja surpreendido por uma rima inesperadamente complexa ou uma batida fora do lugar. Ouvir um rapper verdadeiramente puto com algo é das coisas mais cruéis que você pode fazer com os seus ouvidos. Em dado momento de Fuck You Lucy, é impossível não ser tomado pela a raiva do Slug - ele começa a berrar e perder o tempo, esganiçar a voz, embaralhar as sílabas e perder ar. Lucy fez um belo estrago nele (ou não, Lucy pode nem ter existido). Não importa se ele gravou em um ou quinze takes, se usou pro-tools ou coisas do tipo. O que importa é o que sinto. Por isso que escuto hip hop. Para que de vez em quando eu encontre uma canção como essa e fique transtornado com os efeitos que ela tem em mim e ligar o repeat e começar tudo outra vez. Até porque: most of this garbage I write that these people seem to like is about you and how I let you infect my life.

lost

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Finalmente acabou. Apesar de nem assistir mais a série, quero aproveitar o momento para lembrar do início de Lost e como ele mudou as coisas aqui no Brasil. Ou pelo menos pra mim.

Em setembro de 2004 eu tinha uma conexão de 300k que me dava uma taxa de dowload de míseros 30kbps. Naquela época o bittorrent ainda estava começando a ganhar força como alternativa viável dentro do mar revolto dos serviços de P2P. Minha conexão tétrica não me permitia utilizar bittorrent de forma satisfatória. Utilizava fservers de IRC e Soulseek para baixar coisas. Era um saco, tudo demorava e ainda perigava não rodar direito no meu computador (um K6 II velho de guerra).

Aí que essa série chamada Lost começou a aparecer em todo lugar (a tag line padrão era "muito mais foda que arquivo x"). IRC, soulseek, links diretos, bittorrent e emule. Todo lugar. Comentava-se de um site de que já tinha todas as legendas em português dos episódios que passaram - numa época em que achar legendas já era algo nebuloso. E era verdade: todas as legendas lá, feitas com velocidade incrível. Era como se o futuro tivesse chegado de repente.

A idéia de assistir algo que em menos de 24 horas do seu horário de transmissão original e já legendado em português me atordoou.

Mas eu ainda tinha a taxa de 30kbps me limitando. Baixei os primeiro quatro episódios de Lost num fserver porque não vinha de jeito nenhum por bittorrent - eu era inconectável. Cada um demorou cerca de seis horas. Quando rodei o primeiro episódio, a placa de vídeo não aguentou. Tive que converter para .mpg (já com as legendas aplicadas) e gravar em um VCD para assistir no DVD.

Parecia não ser difícil mas dava um puta trabalho.

Acho que foi a primeira vez que tive contato com um monte de coisas novas: scene (tive que aprender a ler coisas como lost.s01e01.hdtv-lol, não podia correr o risco de baixar o episódio errado), bittorrent (época de ascenção plena do já falecido mininova), formatos de arquivos (.avi, .mkvb, .rmvb), legendas (arquivinhos .srt muito estranhos), conversões (fazer vcds, dvds e etc) e finalmente: a TV americana sem limitações.

O que passava lá eu podia assistir aqui.

Arrisco dizer que esse "novo mundo" não começou a ser desbravado somente por eu e mais uma dúzia porque com o tempo a coisa começou a pegar forma. Tinha muita gente fazendo o mesmo que eu. Mas muita MESMO.

Os sites de legendas começaram a oferecer os arquivos em coisa de seis horas após o horário de transmissão original (muitas vezes em incríveis duas horas). O Mininova indexava os episódios de Lost com centenas de milhares de seeders toda semana. Em todos os cantos da internet se comentava essa tal série nova cheia de mistérios. Eu tinha a impressão de que estava começando algo muito grande - e de fato estava, basta olhar ao seu redor.

Com o tempo, já com um computador decente e uma conexão mais generosa, consegui montar meu primeiro set-up PC-TV: Utilizando a saída a/v liguei meu pentium IV na minha TV de 29' tubão e assistia minhas séries sem precisar de conversão nem nada, ainda que em uma qualidade bem fraca.

Percebi que muita gente também estava fazendo isso porque em fóruns se discutia muito que placa de vídeo, cabos e etc comprar para assistir "lost na tv". Pra mim foi aí que nasceu a minha Google TV. Desde essa época não diferencio mais minha TV do meu computador. Pra mim é uma só coisa.

Claro que tudo isso podia ter acontecido de qualquer forma, pode-se pensar. Mas sem Lost puxando uma legião imensa de fãs para frente de seus computadores para baixar, semear, legendar e discutir a série as coisas poderiam ter demorado bem mais.

Podia acontecer com outra série também, mas foi o casamento perfeito: Estávamos começando a ter acesso a tecnologias novas e o entretenimento americano já não precisava mais passar pelas mãos de uma distribuidora nacional para chegar até nós. Lost era o carro-chefe de tudo isso, com seu ar de mistério e episódios cada vez mais angustiantes. Era viciante.

Hoje em dia qualquer série americana (ou britânica ou japonesa ou argentina) está a um par de cliques para download, legendas encontradas na internet são não raro superiores a legendas de cinema, transformar seu computador em um centro de entretenimento não custa muita grana e não consigo deixar de pensar que foi por causa de Lost que aprendi a consumir entretenimento de uma forma diferente.

até mais

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O Isis acabou.

Simply put, ISIS has done everything we wanted to do, said everything we wanted to say. In the interest of preserving the love we have of this band, for each other, for the music made and for all the people who have continually supported us, it is time to bring it to a close. [resto aqui]

Anos atrás, foi a banda que escolhi para escutar com calma antes de vasculhar o tal metal moderno americano com mais fôlego. Peguei um puta susto. Que cacete de canções são essas. Não demorou muito para começar a entender e virar fã. Oceanic foi o único disco que consegui escutar nas minhas primeiras semanas em São Paulo. Me acompanhou naqueles primeiros dias de confusão sensorial e geográfica. Era o único disco que me fazia sentido.

Eyes shut, feet bare
For this journey, I'm unprepared
I walk on
Sight renewed
Seek new life

A broken mind is no escape
When there's no one left to reason with
There's no one left to call your name

Esse Peter Hayes sabe muito.

No caminho de casa encontro outra viatura. Paro ao lado e peço ajuda - cordiais, perguntaram a marca de meu carro e, diante das informações que lhes passava, questionaram se me chamava Fernando Sampaio, advogado. Alívio. Ouvir meu nome da boca de um policial significava, naquele momento, que alguém estava fazendo seu serviço. Estacionei e sai para falar com eles. "Estávamos lhe procurando mas não podemos ir ao local em que você os deixou. Temos outros sete carros na mesma situação, a cidade está um inferno". Sete carros!? SETE!!? Sete carros ainda em seqüestro, em uma noite de sábado, e eu livre já.

Pedaço do post do Fernando Sampaio sobre o seu assalto em Belém no último sábado, grifo meu.  Isso quer dizer que numa noite de sábado qualquer, SETE SEQUESTROS SIMULTÂNEOS ocorrem em Belém (pode não parecer um número muito grande, mas entenda Belém como um bairro de São Paulo qualquer) e quando chega-se em uma DP, o policial dorme sentado e indica o telefone em cima da mesa para "ligar para o 190" ou a fila, para "esperar o escrivão chegar" para fazer a ocorrência. Cidade em chamas, com todos esperando a sua vez de ser assaltado e sequestrado.





bunker
[renmero]


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