Eu fui fissurado pelo Borges, nos anos 90. Em 99 fui a Buenos Aires para tomar umas xícaras de "te" nas imediações da mítica Florida, em El Caminito, procurar por ali alguma briga de canivetes. Nesse única viagem, logo na primeira noite, tomei um porre homérico num show de tango, entrei numa van com turistas americanos e tentei convencê-los que a tradução para Hyde Park Hotel, o hotel onde eu estava hospedado, era "Raio Que os Parta Hotel". Na ressaca, caiu minha ficha de que eu era mais histriônico e menos sardônico, mais Hunter Thompson que Jorge Luis e, ali mesmo, em Buenos Aires, desencanei do velho sério e erudito.
A literatura de Borges tem tanto humor quanto mulheres. Tem algum humor involuntário, alguma ironia profunda, algum sarcasmo literário mas quase nada que provoque gargalhadas.
Pessoalmente, porém, e quanto mais velho, Borges foi ficando mais solto, mais engraçado.
Lembro de uma das últimas entrevistas que Borges deu para a TV. Foi para Roberto Dávila, no programa da TV Manchete dirigido por Walter Salles. Borges estava todo torto, desconfortável num sofá, mas transbordava alegria. Quando perguntado sobre qual conselho o escritor daria às pessoas que quisessem se casar, Borges respondeu: "No!".
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Tudo isso dito, confesso uma lacuna na literatura de Borges: "Seis Problemas para dom Isidro Parodi", escrito em parceria com o amigo Adolfo Bioy Casares sob a alcunha de H. Bustos Domecq. Comprei a nova edição da Globo, capinha feia, sem o nome de Domecq na capa - e estou rindo muito!
Colabora com essa graça, certamente, a nova tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro que atualiza gírias, faz o texto ficar mais moderno.
Eu fico imaginando o quanto Borges e Casares se divertiram imaginando esses "contos-policiais-ao-contrário". Para quem não sabe, "dom Isidro era dono de uma barbearia no bairro Sul e havia cometido a imprudência de alugar um quarto a um escrevente da delegacia 18, que já lhe devia um ano. Essa conjunção de circunstâncias adversas selou a sorte de Parodi: as declarações das testemunhas (que pertenciam à turma do Pata Santa) foram unânimes: o juiz o condenou a vinte e um anos de reclusão.". O preso acaba se transformando num investigador que resolve os crimes atrás das grades.
Não tou nem na metade do volume, mas tinha que escrever isso, dar a dica. Quem acha Borges sério, pesado, difícil, pretensioso, bem podia começar por esse "Seis Problemas para dom Isidro Parodi", que traz também "Duas Fantasias Memoráveis" - que ainda não li.


